ESCANTEADOS: A ELITIZAÇÃO DOS ESTÁDIOS NO RIO DE JANEIRO
ESCANTEADOS: A ELITIZAÇÃO DOS ESTÁDIOS NO RIO DE JANEIRO
Por Bruno Marinho, Francisco Paulo, Gabriel Ribeiro e Rodrigo Carvalho.
Além de ser conhecida como uma das cidades mais turísticas do mundo, o Rio de Janeiro é também grande polo esportivo no cenário internacional, onde se encontram lugares como o Maracanã, estádio histórico que já recebeu 2 Copas do Mundo; o Maracanãzinho, arena que já recebeu inúmeros jogos da seleção brasileira de vôlei; e o Engenhão, lugar onde o astro Usain Bolt teve sua última corrida.
Com isso, a cidade maravilhosa, como é chamada, foi palco de grandes competições nessas últimas décadas, sendo essas os Jogos Pan-Americanos de 2007, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Assim, os locais que seriam sede desses eventos na região precisavam passar por reformas e construções para receber essas modalidades.

Engenhão, Maracanã e Parque Olímpico do Rio. (Fotos: Gustavo Garcia/ge - Marcello Neves/LANCE! - Miriam Jeske/Brasil2016.gov.br)
Lugares como o Maracanã, o Engenhão e o Parque Olímpico da Barra da Tijuca fizeram parte do processo de adequação desses estádios para as competições que aconteceriam na região. Dessa maneira, ao mesmo tempo que esses espaços presenciaram uma melhora na sua estrutura, através do aumento exorbitante no preço, essa modernização gerou uma certa elitização nos espaços esportivos. Assim, locais que eram frequentados por pessoas de todas as camadas sociais, já não recebem indivíduos com baixo poder aquisitivo com a regularidade de tempos passados.
Essa reportagem traz à tona o processo de como essa elitização se tornou cada vez mais presente no cenário esportivo nos estádios do Rio de Janeiro, além de mostrar a realidade das pessoas que frequentavam esses espaços antes dessas reformas e não conseguem mais ter acesso às arenas.
REFORMA DOS ESTÁDIOS
A primeira das reformas aconteceu no Maracanã, entre 2005 e 2006, com o objetivo de modernizar o estádio para a disputa do Pan-Americano de 2007. Ali se iniciou o processo de descaracterização do estádio que um dia foi o maior do mundo. Primeiro removeram o icônico placar eletrônico, que marcou momentos históricos do futebol brasileiro, o substituindo por telões LCD. Logo depois, colocaram cadeiras no setor mais popular do estádio, a famosa geral, destruindo um patrimônio imaterial do futebol e do lazer carioca.

O saudoso e belo placar do Maracanã anunciando o gol (Foto: Juha Tamminen)
A segunda reforma foi ainda mais fatal, se antes o antigo Maracanã respirava nas arquibancadas, agora seria completamente apagado. Com a escolha do Brasil como país sede da Copa do Mundo de 2014, o estádio foi totalmente reconstruído para se encaixar no padrão FIFA. Sua capacidade, que era de mais de 100 mil antes das reformas, foi reduzida para 86 mil e depois para 78 mil. Os setores tiveram sua arquitetura totalmente alterada, acabando com os espaços mais populares do estádio, os setores verde e amarelo. Além disso, a clássica cobertura de concreto foi demolida e substituída por uma membrana tensionada.
Tal mudança nos setores acarretou não só na diminuição do público, mas também na dificuldade de organização do estádio para receber torcida visitante, uma vez que o projeto do “Novo Maracanã” foi pensado para a Copa do Mundo e não previa a construção de um setor separado para a torcida do time adversário, obrigando os clubes a fecharem parte de um setor inteiro e diminuindo ainda mais sua capacidade.
Reportagem mostrando torcedor da geral durante uma final Flamengo x Vasco. (Reportagem: Régis Rösing/Rede Globo)
Além da reforma no Maracanã, a cidade do Rio de Janeiro também convivia com a construção de um novo estádio, o até então chamado Engenhão. No dia 30 de junho de 2007, o Estádio Olímpico João Havelange foi inaugurado. Com uma pista de corrida olímpica entre a arquibancada e o campo, utilizada durante os jogos e outras competições de atletismo que viriam a ocorrer na cidade. O evento inaugural foi uma partida de futebol entre Botafogo x Fluminense. Nessa ocasião, o glorioso alvinegro venceu por 2x1, apesar do primeiro gol ter sido marcado pelo lado tricolor.
Talvez esse resultado tenha determinado a concessão do estádio, o segundo maior da capital carioca, que o Botafogo conseguiu no mesmo ano. Foi a partir desse momento que o local começou a ganhar cor, mesmo que apenas o preto e o branco. Em 2015, a pedido do Botafogo, o nome do estádio foi alterado para Estádio Nilton Santos, um dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro. Popularmente, continuou conhecido como Engenhão. Esse lugar, que uma vez foi palco de medalhas e recordes olímpicos, incluindo as glórias de Usain Bolt nas olimpíadas, ganhou um novo sentido. Agora, o estádio tem suas arquibancadas e arredores pintados com as cores do Botafogo. A verdade é que não tem como separar mais o clube da Zona Sul do Rio do Niltão, tanto pela memória afetiva, quanto pelo prazo de concessão, estendido até 2051.

Torcida do Botafogo no Estádio Nilton Santos. (Foto: Arquivo pessoal.)
Por muito tempo, o Engenhão foi conhecido por ser um estádio mais acessível na questão dos preços, que no passado recente, já chegaram a custar incríveis R$5,00. Porém, no início do ano de 2023, algo mudou. Uma nova política de preços foi implementada pelo clube que manda seus jogos no estádio. Essa mudança pode ser explicada de uma maneira bem simples: o Botafogo se tornou uma SAF. Isso significa que, se antes, o clube tinha uma gestão tradicional para o padrão o brasileiro - e de certa forma amadora -, com a venda do futebol do clube para o americano John Textor, ela se tornou profissional. Houve uma melhora significativa em todos os aspectos da organização, sejam elas estruturais, ou até mesmo a chegada de jogadores mais talentosos. Entretanto, o objetivo agora é o lucro, afetando assim o bolso dos torcedores.
O Botafogo hoje sofre as consequências de qualquer clube da primeira prateleira do futebol nacional que tenha um time competitivo, o aumento do preço do ticket médio nos jogos. De acordo com um levantamento feito pelo Espião Estatístico do GE em abril, o Botafogo é o clube com o ingresso mais caro do futebol brasileiro, com o valor médio de R$86,59. Esse parece ser o caminho que os clubes devem seguir daqui para frente. No caso do Botafogo, isso gerou um afastamento do público da arquibancada. Em junho, foi feita uma pesquisa da média de público dos clubes como mandantes até então, pelo jornalista Rodolfo Rodrigues, na ocasião, o Botafogo ocupava a 15° posição do ranking, com média de 20.058, mesmo estando em boa fase. Fica claro que o grande responsável por essa diminuição da torcida é o preço.

SEU RAEL
"Manoel, meu irmão mais velho, era vascaíno doente. Ele que me levou ao Maracanã pela primeira vez, aí Vasco e Fluminense iam jogar. Eu gostei mais do Fluminense e o meu irmão estava querendo que eu fosse Vasco. Vim do interior, não conhecia time nenhum, aí meu irmão: 'Vamo lá ver, Vasco e Fluminense', digo - 'Vamo'. Via ele torcendo para o Vasco à beça e eu olhando assim, 'Não gostei do Vasco não, quero o Fluminense', mas não falei pra ele não". Foi assim que Israel Alves de Andrade, antigo morador da região do Maracanã, descreveu seu primeiro contato com o futebol.

Foto do Seu Rael. (Foto: Arquivo Pessoal)
As reformas no Maracanã e seu entorno acabaram expulsando as classes mais baixas da área. Esse é o caso de Israel, que tem 83 anos e hoje mora na Cidade de Deus, bairro que fica afastado do estádio. Apesar da paixão pelo futebol e pelo Fluminense, é praticamente impossível vê-lo usando uma camisa tricolor. Na maior parte do tempo, está de calça jeans, tênis social ou sandália e uma camisa social de botão. Os poucos fios de cabelo na lateral da sua cabeça são completamente brancos, combinando com seu bigode. Atualmente, quase não vai mais ao estádio, tanto pela idade, quanto pela distância. Desde sempre, o rádio é a principal fonte de informação e entretenimento para Israel. Até mesmo quando ia para o estádio, seu melhor amigo - o radinho de pilha -, o acompanhava.
“Eu morava no interior do rio, o Maracanã foi construído em 1950 e eu cheguei em 1955. Eu morava na travessa Turf Club, conhecida como rua radialista Waldir Amaral, onde hoje é a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)”. Até em momentos onde fosse esperado uma resposta mais convencional, ele surpreendia com uma resposta que tivesse o futebol presente na conversa. A alegria dele em falar sobre o esporte era notória.
“Eu saí dali sem querer. Foi o Governador Carlos Lacerda que acabou com a comunidade, que na época era toda favela, que era conhecida como a Favela do Esqueleto. Ali tem um prédio na UERJ menor aquele prédio era o esqueleto que eles começaram a fazer e pararam a obra, pessoal invadiu para morar ali, e o Lacerda querendo fazer a UERJ tirou o pessoal dali e mandou o pessoal para Bangu (Vila Aliança e Vila Kennedy) e para Nova Holanda. O pessoal nem sabia quando, já entrava no caminhão, despachava as mudanças e já tirava as barracas”.

Imagem aérea da antiga favela do esqueleto. (Foto: O Globo)
Sua saída sem aviso prévio, da região onde morava com sua família e com o nascimento do seu primeiro filho que já tinha 1 ano e brincava na praça Maracanã, pegou ele de surpresa. Quando foi deixado em Bangu distante de onde morava com sua família, onde teve que se ambientar com uma nova realidade diferente e onde morava que dava acesso a uma de suas paixões que era o futebol.
"Quando eu fui morar em Bangu em 1966, eu cheguei na firma onde eu trabalhava cantando ah o bangu é campeão, aí os flamenguistas falou 'apareceu um torcedor do Bangu'.”
A primeira lembrança na entrevista ao citar o bairro onde viveu foi o título do Campeonato Carioca do time do Bangu sobre o Flamengo em 1966, uma vitória sobre o maior rival do seu time de Coração, a alegria dele rindo com as derrotas do Flamengo há 57 anos atrás faz parecer que foi hoje.

Equipe do Bangu campeã carioca de 1966. (Foto: Agência O Globo)
A rivalidade entre Fla x Flu também tem seu espaço no dia a dia de “Seu Rael”, como é chamado pela família e amigos. Tudo relacionado ao time rubro-negro é evitado e detestado por ele. Isso inclui até mesmo páginas de jornal impresso. Quando aparece qualquer coisa relacionada ao Flamengo, no caderno de esportes, certamente esse pedaço será cortado, rasgado ou rabiscado. Em alguns casos, como grandes conquistas do Flamengo, ou manchetes na página principal, é preferível que nem compre o jornal no dia.
“Não tenho bronca com o Vasco e Botafogo não, agora o Flamengo…vou nem falar nada”.
“Meu genro quando vem aqui pro Rio gosta de conhecer os estádios, já levei ele em Laranjeiras, no campo do Bangu, no Maracanã ele já foi várias vezes…”. Seu Israel conta isso, enquanto lembra a escalação completa do Bangu campeão carioca em cima do Flamengo, na década de 60.
Além desses estádios citados por Israel, ele afirma já ter ido bastante também no Nilton Santos, construído recentemente. A partida de inauguração foi um Botafogo x Fluminense, vencido pelo glorioso alvinegro por 2 a 1. Na ocasião, para conseguir o ingresso gratuitamente, era necessário trocar por um alimento não perecível. “Fui até a Barra trocar, chegando lá tinha uma fila enorme. Fiquei esperando por muito tempo, aí a fila começou a andar rápido e eu já sabia que tinham acabado os ingressos”.

Partida entre Fluminense e Botafogo, em 2007. (Foto: Alexandre Durão/Globoesporte.com)
Logo depois, o questionamos sobre como ele se apaixonou pelo futebol, paixão que era nítida diante de todo o conhecimento que ele apresentava durante a entrevista.
“Eu morei perto do estádio (Maracanã) e sempre ia lá ver jogo, mas não foi por influência de ninguém não. Eu trabalhava numa fábrica de tecido e tinham muitos jogadores lá. A fábrica era tão grande que faziam campeonatos de seção contra seção. Teve um campeonato lá que o pessoal tava encarnando em mim, por que eu era um dos mais velhos do time e não tava jogando nada. Aí me deram a bola e eu fiz dois gols. Acho que foi ali na fábrica que eu me encantei com esse negócio de futebol”.
Mesmo com esse histórico de frequentar o Maracanã, Israel mostra descontentamento com as reformas que ocorreram no estádio que elitizaram o acesso a esses espaços:
“O Maracanã antes de fazer essa obra aí para mim era muito melhor porque tinha a geral. A geral era onde tinha os pobres, quem não podia pagar ia de geral. Mas era bom à beça, a gente ficava perto dos jogadores, xinguei muito jogador lá”.
Além disso, Israel fala que sua mudança foi o motivo dele deixar de frequentar o Maracanã:
“Diminui (quantidade de idas ao estádio), mudei dali, não tenho ido mais não”. Após um longo período de tempo sem frequentar o estádio, ele retornou ao estádio para assistir a partida entre Fluminense e Palmeiras no brasileirão em 2022. “Esse dia foi engraçado, eu tinha saído com o meu genro e eles estavam lá em casa esperando com um ingresso na mão, aí quando eu cheguei falei, ‘Bruno, você tá com ingresso’, aí ele ‘tô’, ‘então vamos gente’, ‘ah mas a gente tá atrasado’, aí eu disse, ‘Não tem problema’.

Partida entre Fluminense e Palmeiras em 2022. (Foto: Cesar Greco)
Contudo, mesmo após as reformas do Maracanã, Israel não vê muita diferença estrutural entre o entorno do estádio agora e antigamente: “Não mudou muito não”. Ele também comenta com certa tristeza o fim da geral e o aumento dos preços dos ingressos do estádio. “O problema é que tiraram a geral e colocaram cadeira, cadeira é mais cara”. Ele inclusive relembra com nostalgia a época em que o Maracanã tinha uma capacidade maior: “Gostava mais antigamente porque cabia 100 mil pessoas, hoje não cabe nem 80 mil”.
PREÇO DOS INGRESSOS
Com a redução da capacidade de 100 mil para 78 mil lugares e a modernização, o aumento do preço dos ingressos foi apresentado como alternativa para a manutenção dos lucros.
Com isso, o valor médio dos ingressos para os jogos no Maracanã aumentou significativamente na última década. O valor médio dos ingressos para os jogos do Flamengo, por exemplo, no Brasileirão de 2019 foi de R$ 63,00, enquanto em 2009 era de R$ 24,00. Para os jogos do Fluminense, o valor médio em 2019 foi de R$ 51,00, contra R$ 22,00 em 2009. Os aumentos foram de 162% e 131%, respectivamente.
Em pesquisa feita pela reportagem, o gráfico abaixo compara o preço dos ingressos com o salário mínimo ao decorrer das décadas.

Apesar da queda entre 2019 e 2022 é importante lembrar que, desde 2013, para ter acesso ao ingresso mais barato é necessário possuir um plano de sócio torcedor com alta prioridade na compra. No caso do Flamengo, equipe escolhida como base do gráfico, o plano custaria R$ 325,40 por mês.
A situação atual mostra que os valores dos ingressos estão subindo acima da inflação, tornando a adesão ao programa de sócio-torcedor indispensável para aqueles que frequentam todos os jogos. Embora as competições disputadas e o desempenho do time em campo influenciem nos valores, a tendência é de que os estádios de futebol se tornem mais caros e elitizados.
No futebol carioca atualmente há dois modelos de sócio-torcedor: Baseado em prioridade e Ingressos gratuitos. Botafogo e Fluminense oferecem planos que privilegiam os benefícios para os torcedores fiéis, enquanto Flamengo e Vasco adotam uma estratégia mais rentável, baseada na prioridade de compra.

Cartões de sócio-torcedor. (Imagem: Divulgação/Flamengo)
Para demonstrar as diferenças iremos usar os programas de Flamengo e Fluminense como exemplos.
Com seu programa lançado em 2013, o Flamengo sempre deixou explicito que o objetivo era maior lucratividade. Na época, o dirigente Luiz Eduardo Baptista afirmou que os planos deveriam ser ‘melhores para o clube do que para a torcida’. Hoje o Flamengo disponibiliza cinco planos diferentes no programa ‘Nação’. Os valores variam entre R$ 44,70 e R$ 325,40 por mês.
A visão de “melhor para o clube” é facilmente percebida na progressão dos planos rubro-negros. Além de não oferecer nenhum plano que dê o ingresso gratuito, o percentual de economia mensal, para os frequentadores assíduos, diminui a partir do ‘Nação Prata’.
Tendo a maior torcida do país, o elenco mais caro do continente e o estádio quase sempre cheio, aderir a um plano mais barato gera no sócio-torcedor do Flamengo o risco de ficar de fora. O programa incentiva que seu torcedor gaste mais para garantir que poderá ver seu time. No seu plano mais vantajoso, o flamenguista é quem mais paga e menos economiza dentre os torcedores do Rio de Janeiro. Ainda assim, o Flamengo consegue no volume de sua torcida a posição de segundo programa com mais associados do país.

Fla-Flu pela Copa do Brasil 2023. (Foto: Armando Paiva/LANCE!)
O Fluminense disponibiliza ao seu torcedor o programa de sócio ‘Somos Fluminense’. Com cinco opções de planos para arquibancada, os valores variam de R$ 25,00 a R$ 120,00 mensais. Entre benefícios estão o acesso ao programa de pontos exclusivo para troca por produtos/experiências e desconto em lojas oficiais, além da possibilidade do ‘check-in gratuito’ por valores acessíveis para seus jogos como mandante no Maracanã.
A lógica que orienta o programa de sócios do Fluminense é beneficiar o torcedor que vai fielmente aos jogos do time. Apesar de, nos planos regulares, não ter um percentual de economia tão grande quanto o Botafogo, é, junto dele, o clube que faz com que seu sócio pague o menor valor.
O grande destaque para o programa tricolor é a presença de um plano popular, para quem comprovar renda compatível. O valor de R$ 35,00 representa uma economia mensal de até 82%. O programa do Flu também oferece a prioridade 1 pelo valor mais barato, justamente no plano que garante o ingresso gratuito e dá maior economia.
Com apenas três níveis de prioridade, o programa vai na contra-mão da lógica implementada pelo Flamengo. O Fluminense por vezes abre o check-in do ‘Leste Raiz’ junto dos planos 100%, mesmo sendo prioridade 2. Além disso, ainda há a possibilidade de, em jogos específicos, aumentar o desconto oferecido pelos planos Guerreiro e Arquiba 60%. O patamar de benefícios no acesso ao estádio catapultou o número de sócios, hoje sexto do ranking nacional, e a frequência no estádio, com recorde de sócios presentes nas últimas partidas.
Esses aumentos afastaram parte da torcida dos estádios e reduziram a média de público dos jogos no Rio de Janeiro. Segundo dados da CBF, a média de público pagante dos jogos dos quatro grandes clubes cariocas no Brasileirão caiu de 23.571 em 2009 para 19.494 em 2019. A queda foi de 17%. Além disso, muitos torcedores passaram a recorrer à gratuidade ou à meia-entrada para conseguir assistir aos jogos com preços mais acessíveis.
Leia a reportagem completa sobre os programas de sócio-torcedor clicando aqui.
TÃO PERTO, MAS TÃO LONGE
Quando se chega ao Maracanã, uma das coisas que se destacam é a presença massiva de vendedores ambulantes, que trabalham constantemente na região. Essas pessoas certamente estiveram presentes em eventos históricos nos arredores de um dos principais pólos esportivos do mundo, como em partidas da Copa do Mundo de 2014, modalidades das Olimpíadas do Rio de Janeiro, além de jogos decisivos da Libertadores e da Copa do Brasil .
Porém, por esses mesmos indivíduos não possuírem poder aquisitivo, elas são excluídas dessa forma de lazer. Tudo por conta dos enormes preços que esses ingressos custam. Essa elitização do Maracanã gera uma contradição em que as pessoas que mais comparecem ao redor do estádio não podem estar efetivamente presentes naquilo que o mesmo pode oferecer a seus visitantes. Sem contar que esses vendedores, em geral, torcem por um dos clubes que mandam seus jogos na arena, o que acaba criando um distanciamento entre o clube e o torcedor.
Dentre esses inúmeros vendedores, está presente sempre ao lado do Maracanã o jovem Wendel da Silva Meira, de 21 anos, que afirma nunca ter assistido a uma partida dentro do estádio:
“Lá dentro? Lá dentro nunca fui não, só fico aqui mesmo (no entorno do estádio)".
Ele como flamenguista e curiosamente vascaíno também, ainda não teve a experiência de estar mais próximo a seus clubes do coração na região, isso por causa do custo dos ingressos, já que diz não ter condição de ir.

Vendedor Wendel da Silva no entorno do Maracanã. (Foto: Rodrigo Carvalho)
Além disso, uma das coisas que mais assusta ao escutar o relato de Wendel é ele nunca ter visitado o Maracanã mesmo trabalhando um terço de sua vida aos arredores dele. “Eu trabalho no Maracanã, acho que já tem uns 7 anos já”.
Mesmo assim, ele afirma que teve um aumento recente no público do Maracanã, o que contribui nas vendas, nas palavras dele “agora tem muito mais público, mas o maior público é o do Flamengo, é o que mais vende”.
Outra coisa interessante sobre os vendedores no entorno do Maracanã é a diversidade de gerações que acompanharam o passar do tempo do estádio. Dessa forma, assim como Wendel estava presente no jogo entre Flamengo e Fortaleza trabalhando, também estava presente Roberto Alves dos Santos de 55 anos de idade, que trabalha na região do estádio há 25 anos.

Vendedor Roberto Alves no entorno do Maracanã. (Foto: Rodrigo Carvalho)
Também flamenguista, Roberto relembra a sua primeira vez em uma partida de futebol. “Foi em 1992, quando foi Flamengo e Botafogo, aquela decisão em que o alambrado caiu em cima da arquibancada. Quando o Flamengo ganhou do Botafogo com gols de Júnior de falta, um de Gaúcho e o outro, se não me engano de Nunes (na verdade, o autor do gol foi Nélio), por aí, esses dois eu sei. Foi 3 a 0, no campeonato brasileiro, antiga Copa União”.
Ele também relata que não consegue mais entrar no Maracanã, não só pelos preços, mas também pela maneira como o estado começou a tratar os ambulantes.
“Não tenho condição para entrar, porque o ingresso agora é muito caro, e não deixam mais o camelô trabalhar lá dentro. A gente tem que trabalhar pelo lado de fora”.
Por fim, Roberto fala sobre como era melhor trabalhar no Maracanã antigamente, na época da antiga geral. “Trabalho aqui há mais ou menos 25 anos, quando era do tempo da antiga geral, quando era bom trabalhar, quando o Maracanã era bom”. Assim, ele ainda tece críticas à modernização do estádio.
“Mas quando o Maracanã remodelou, mudou muita coisa, não é a mesma coisa. Antigamente você sentia a vibração de perto, porque você sentia o calor do jogador e o jogador sentia o calor do torcedor”.
MUDOU PRA MELHOR?
Por mais que o antigo Maracanã seja romantizado e saudado por muitos, alguns discordam da afirmação que a versão anterior era melhor. Esse é o caso de Fernando Ewerton, professor do curso de Jornalismo na Escola de Comunicação da UFRJ, antigo titular da disciplina de Jornalismo Esportivo, ex-editor do Portal LanceNet e assessor do Comitê Paralímpico Brasileiro durante as Paralímpiadas de Londres em 2012.
"Eu acho que na verdade existe uma certa romantização da geral. Era um lugar péssimo pra você assistir ao jogo. O Maracanã tinha uma nítida divisão de classes. Naquele setor, o melhor lugar era perto do corner (escanteio), mas aí você não via o gol do outro lado. Além disso, você sofria ainda com as coisas que eram jogadas da arquibancada em cima".
Fernando ainda completa contando que, mesmo com os espaços populares existindo, os mais pobres eram maltratados dentro do estádio.
"O anel era muito legal, mas ele estava caindo aos pedaços e ali poderia ser uma catástrofe. Eu estava no dia em que a arquibancada caiu na final Botafogo e Flamengo. E foi um dos momentos de maior silêncio que eu já vi no Maracanã porque ficou todo mundo parado assim tipo 'pô não se mexe porque pode cair aqui também'. Então isso mostra como o Maracanã, quando democrático cabiam milhares de pessoas, mas cabiam milhares de pessoas sendo maltratadas dentro do estádio."
Tragédia da queda da arquibancada do Maracanã, antes da final do Brasileirão de 1992.
No documentário 'Geraldinos', de 2015, é contada por meio da geral toda a história do Maracanã desde sua construção até o pós-copa de 2014. Em entrevista a produção, o então Deputado Estadual do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, comenta sobre a divisão de setores do Maracanã e sua semelhança com a democracia, já que ali havia espaço para todas as classes sociais. Logo depois, Freixo relaciona o fim desse espaço democrático com o fracasso do projeto de cidade do Rio de Janeiro para os grandes eventos.
Para Fernando, Freixo estava certo, mas não em tudo.
"Eu compreendo e não concordo com tudo, mas acho que tem razão quando fala de um projeto de cidade. Na verdade, a gente tem esses movimentos purificação, né? No teatro, no cinema. O afastamento de pobres e há bastante tempo, desde o início do século passado. Eu acho é que é importante na perspectiva do esporte mencionar a elitização do futebol. O certo seria talvez dizer reelitização. A gente não pode perder a dimensão de que o esporte futebol nasceu como uma prática elitista. E o futebol é o reflexo dessa sociedade dividida que a gente tem. E o Maracanã foi um reflexo disso."
Com o novo Maracanã, os clubes passaram a apostar no sócio-torcedor como modelo de gestão da venda de ingressos. Na visão de Fernando a aposta é boa, apesar de dificultar e encarecer os ingressos.
"Eu já fui sócio torcedor numa época em que meu time estava em baixa é naquela linha de 'pô, vamos dar uma força aí pra ver se melhora'. Hoje em dia não sou e vou menos ao estádio porque acho ingresso caro. Agora tenho direito a meia entrada e até pretendo retornar, mas da última vez que fui ao Maracanã eu saí de lá e dizendo 'não volto'. Foi um esquema de entrada insano. Essa é uma coisa realmente absurda. Entrei os vinte e cinco do primeiro tempo e eu cheguei no Maracanã. O jogo era umas nove horas, eu cheguei no Maracanã sete e meia. Foi uma hora, quase duas, do lado de fora pra retirar um ingresso na bilheteria, sendo que poderia ser tudo pela internet. É uma experiência ruim. Mesmo pagando caro."

Fila para retirada de ingressos em um jogo do Fluminense no Maracanã. (Foto: Rodrigo Mendes/NETFLU)
Uma das maiores reclamações de antigos torcedores é a mudança de atmosfera no Maracanã, pois muitos acham que a magia do antigo estádio se perdeu com a arenização. Tais opiniões não são de exclusividade do torcedor carioca, em outros estádios de Copa do Mundo também houve protestos. Apesar disso, Fernando discorda do saudosismo, para ele haviam partes boas, mas o estádio como ambiente para assistir futebol é melhor hoje.
"O Maracanã tinha coisas que eram boas claro, o anel veio mudando esses anos todos. Era ótimo você, num jogo de quatro mil pessoas quarta-feira à noite, poder sair de trás de um gol e ir para trás do outro gol. Hoje em dia é muito mais complicado pra fazer isso, mas agora é muito melhor você ir num estádio cheio com todo mundo sentado no lugar onde gostaria."
Questionamos sobre o tão falado 'Padrão FIFA' trazido para o Brasil nas arenas da Copa do Mundo, que não levou em consideração as características das cidades e da torcida brasileira na construção dos novos estádios. Fernando concorda que foi falho, mas ressalta que esse é o modelo seguido no mundo e que o futebol brasileiro deve acompanhá-lo.
"Seria tão bom poder entrar e sair sem sofrer, (comer) sem pagar preço exorbitante por sanduíche. É um modelo de negócio que a gente ainda tá muito longe do ideal, infelizmente. A gente tende a ver o futebol de uma maneira muito romântica. Mas pra ter jogadores bons no meu time ele tem que ser um negócio que dá certo. O modelo antigo não dava certo."

Maracanã durante a reforma para a Copa de 2014 para cumprir com o padrão Fifa. (Foto: Genílson Araújo)
Para Fernando, a diminuição da capacidade e o aumento dos preços nos ingressos não são os únicos responsáveis pelo afastamento do povo. Na verdade, o grande vilão é a qualidade ruim do translado até o estádio e os problemas econômicos enfrentados por boa parte da população.
"Apesar da capacidade reduzida, tem fatores além. Eu acho que esses problemas são reflexos de todos os fatores sociais que a gente vive. Por que tem cambista? Porque o cara vê uma oportunidade de ficar horas numa fila comprar um ingresso a um preço X e vender por três X. Isso é um bom negócio pra ele que está desempregado. Então assim, tem de tudo. Não é problema só do futebol, mas consequências de um problema social muito maior. Então aí passa por isso, desde a passagem do trem, toda todo o trabalho que dá pra ir ao estádio e é muito desgastante. No fundo eu lamento muito isso porque futebol é ótimo. Faz parte da minha vida né."
A tristeza lamentada por Fernando é compartilhada por todos os fãs de futebol. É triste ver os estádios de futebol se tornando menos acessíveis, a falha dos projetos de cidade tão divulgados nas últimas décadas e das ideias de arenas que nos foram prometidas. Contudo, no fim, para quem toma as decisões, é apenas sobre negócios. Infelizmente, as classes mais baixas não estão inclusas nos beneficiários desse negócio chamado futebol.